segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A SALVAÇÃO É INDIVIDUAL OU COLETIVA?

Sempre ouvi dizer que a salvação é algo individual. Mas, honestamente, nunca li um só versículo bíblico que afirmasse tal conceito. Ao contrário, o que encontro são vários versículos que atestam a salvação de um povo, ou de uma nação, uma raça, tribo, toda terra, ou mundo todo.

Por outro lado podemos perceber que a perdição pode ser individual. Eram cem ovelhas quando uma delas, individualmente, se perdeu. Da mesma forma a perdição do filho pródigo se deu de forma individual. É claro que também encontramos exemplos de perdição coletiva, de tal forma que Deus certa vez afirmou que seu povo (termo coletivo) perecia por falta de conhecimento. Assim, encontramos exemplos de perdição coletiva e individual. No entanto, ao que se refere à salvação só a encontramos coletivamente, nunca individualmente.

A verdade é que não precisamos de ninguém para nos perder; e na maioria das vezes nos perdemos exatamente por não ter ninguém ao lado. Não foi a toa que Deus disse: “Não é bom que o homem viva só”; não por acaso Jesus enviou seus discípulos de dois em dois.

Somos seres sociais e seja qual for nosso temperamento, se quisermos crescer como pessoas, precisamos aprender a viver em comunhão, compreendendo a necessidade que temos uns dos outros.

Não há como ser cristão individual. Não se vive cristianismo isolado. Isso porque o cristianismo não se resume em ter comunhão apenas com Deus, mas ter comunhão com Deus e com o próximo. É essa a mensagem expressa na cruz: uma haste vertical, prefigurando a comunhão com Deus e outra haste horizontal, prefigurando a comunhão com os irmãos. Afinal, se não amas teu irmão a quem vês, como podes amar a Deus, a quem não vês?

É salvo quem faz parte de um povo salvo, quem está ligado ao corpo de Cristo. Pois se alguém não está ligado a ele é como um ramo seco que para nada mais serve senão ser jogado ao fogo. Assim já dizia Santo Agostinho: “Não há salvação fora da Igreja de Cristo”.

Não quero dizer com isso que a salvação esteja atrelada a alguma instituição religiosa, seja ela qual for. Afinal, muitas instituições religiosas estão longe de parecer-se Igreja de Cristo, muito embora se denominem como tal. Refiro-me à Igreja àqueles que comungam da fé em Cristo e se dispõem a viver em comunidade a serviço do próximo. Estou certo de que embora existam aqueles que vivem em comunidade sem de fato amar, é impossível que alguém que de fato ame não viva em comunidade.

A salvação não é individual porque a vontade de Deus é salvar a todos. A salvação não é individual porque não é um fim em si mesmo, a finalidade de sermos salvos é levarmos a salvação a outros que ainda estão perdidos. A salvação não é individual porque ninguém consegue salvar-se a si próprio, antes necessita da graça de Cristo que é manifestada por meio de seu corpo na terra, a Igreja. A salvação não é individual porque um dos passos do processo de salvação é o chamado, e este se dá pela voz do Espírito e a noiva (Igreja) que juntamente dizem: “vem”.

Por fim, ser salvo não significa qualquer mérito pessoal. Significa sim, graça de Cristo, que move céus, terra e corações a fim de nos alcançar.

Portanto, oremos: Obrigado, Senhor por todos aqueles que o Senhor tem colocado em nosso caminho. Pois são anjos sem os quais não saberíamos encontrar-Te!


Por Rev. Julio Fernandes
Igreja REINA – SC
www.igrejareinasc.blogspot.com/

domingo, 24 de agosto de 2008

A FÉ QUE OPERA e o SÁBADO

As duas primeiras curas realizadas por Jesus e relatadas pelo evangelista João, trazem um ponto comum muito importante. Em ambos os casos, a cura não foi operada conforme, os que dela necessitavam, esperavam. Isto é, o milagre não aconteceu conforme a fé deles, mas sim conforme a fé de Cristo. Isso nos leva a entender que mais do que ter fé EM Cristo, precisamos receber a fé DE Cristo. Pois o limiar de nossa fé jamais delimitou, nem jamais delimitará o agir de Deus sobre nós. Mesmo que, em algumas circunstâncias, Jesus tenha dito que foi a fé da pessoa que a salvou, Ele jamais ficou dependente de tal fé para operar o que quisesse. Até porque se a pessoa teve alguma fé, tal fé foi concedida pelo próprio Senhor Jesus mediante seu próprio Espírito, pois a fé é um dom de Deus. Assim, se Deus nos exige fé, antes nos concede a fé exigida.

Muitas igrejas concentram seus esforços no princípio de fazer com que seus seguidores exercitem sua fé EM Cristo. Para isso promovem campanhas onde usam de objetos, amuletos, votos, sacrifícios, concentrando o princípio da fé nas mãos dos homens em lugar das mãos de Deus. No entanto, o verdadeiro milagre tem muito mais haver com a fé DE Cristo, do que com a fé EM Cristo. Graças a Deus, por isso! Afinal, as pessoas que mais necessitam de um milagre, são exatamente aqueles que menos tem forças pra crer. Assim veremos nos casos a seguir:

No primeiro episódio Jesus estava em Cana da Galiléia, quando um oficial do rei, cujo filho estava doente, pediu a Jesus que fosse até Cafarnaum curar seu filho. Ao contrário do que este esperava, Jesus tão somente disse que seu filho já estava curado. Ao descer à Cafarnaum os servos do oficial vieram-lhe ao seu encontro, dizendo-lhe que seu filho vivia, e constatou que a febre o havia deixado no exato momento em que Jesus lhe havia dito: “vai, teu filho vive”.

Jesus viveu em meio a um povo que dependia de sinais palpáveis e tangíveis para crer e exercer a fé. Por isso aquele homem esperava um toque físico de Jesus em seu filho enfermo, para curá-lo. Ao que Jesus fez uma severa crítica, relatando a necessidade de sinais, que aquelas pessoas tinham para, só então, crer. Jesus estava mostrando que, por meio dEle, um novo tempo estava sendo instituído, onde sua palavra seria o modus operandi da fé. Isto é, o milagre não necessitaria mais da crença ritualista, do toque, do visível, do palpável, como era até então, onde toda fé era visualizada e mensurada nos costumes e leis cerimoniais. Neste novo tempo, instituído por Cristo, crer em Sua Palavra é tudo o que precisamos para ver a glória de Deus.

No segundo episódio, um homem paralítico esperava, há 38 anos, a chance de ser o primeiro a lançar-se nas águas do tanque chamado Betesda, quando estas fossem agitadas pelo anjo que as agitava de ano em ano. Qualquer pessoa que mergulhasse primeiro nestas águas quando eram agitadas, era curada de qualquer enfermidade. Este episódio, além de relatar a cura proveniente de Deus, relata uma figuração de Cristo, pois a água prefigurava Jesus, o Verbo encarnado de Deus, a Palavra Viva; o anjo prefigurava o filho de Deus vindo do céu, batizador com Espírito Santo. É no mover do Espírito de Deus sobre sua Palavra que recebemos vida espiritual, regeneração, restauração e cura.

O que mais me chama a atenção neste texto é que o homem tinha, de um lado, o tanque que simbolizava Jesus e, do outro lado, o próprio Jesus. Quando Jesus lhe pergunta se queria ser curado, o homem reclama a falta de ajuda para ser lançado ao tanque. Ah! Se ele soubesse com quem estava falando, a resposta certamente seria outra! Ele estava diante do próprio Cristo e ainda assim depositava sua confiança naquilo que tão somente simbolizava Cristo. O não conhecer Jesus faz com que muita gente, ainda hoje, se porte da mesma maneira.

Fico impressionado com a forma como as igrejas ditas cristãs usam e abusam das figuras, imagens e símbolos em seus rituais de orações, curas e prosperidade. Aliás, existe óleo para cada tipo de milagre desejado, sacrifícios para cada bênção a ser alcançada, objeto “ungido” para cada mal a ser “exorcizado”. E o pior é que muitos desses objetos, artefatos, relíquias, rituais ou sacrifícios nem sequer são figuras de Jesus. Se conhecessem a Jesus verdadeiro não precisariam depositar sua fé nesses amuletos. Abandonariam essas práticas que tão somente configuram verdadeira feitiçaria* e outras vezes vodu*. (* confira o glossário)

Tais atos e figuras simbólicas são perfeitamente compreensíveis quando analisados na perspectiva de quem vivia em um tempo em que Cristo ainda não havia sido manifesto aos homens. Assim, tais figuras e rituais serviam de sinal e anelo que apontavam Cristo, afim de que Cristo, ao vir, fosse reconhecido pelos seus. Uma vez que Cristo tenha vindo, morrido e ressuscitado, que esteja entre nós, e nós o tenhamos reconhecido e vivamos nEle, não precisamos mais de sinais, ou sombras, pois temos o próprio do qual os sinais figuravam. Não se precisa das placas que indicam o caminho, depois que já se chegou ao destino. Assim, não precisamos das sombras se já temos Cristo.

Da mesma forma deve ser compreendida a questão da guarda do sábado que, não por acaso, é abordada nesse mesmo texto e contexto, onde não só Jesus a quebrou, curando nesse dia, como ordenou ao paralítico quebrá-la, carregando sua cama. Tal quebra não se trata de insubordinação ao mandamento divino, mas sim de que já havia cumprido seu propósito, pois sua finalidade era apontar para Cristo. Paulo Afirmou que os sábados eram sombras do que havia de vir, sendo que o que havia de vir era Cristo. Portanto, o sábado simbolizava Cristo, em quem encontramos refrigério e descanso. Uma vez que tenhamos o próprio Cristo em nossa vida, não é coerente continuarmos com os olhos fitos na sombra.

“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo” (Colossenses 2:16-17).

Minha oração é para que o Senhor nos faça compreender a sua graça, vivendo pela fé, a fé DE Cristo, que nos é dada por meio de sua Palavra vivificada pelo Santo Espírito. Afim de que possamos dizer: Tua graça me basta, Senhor!



Rev. Julio Fernandes
REINA - SC
www.igrejareinasc.blogspot.com


Glossário (segundo Freud em Totem e Tabu)
Feitiçaria – Rituais representativos que visam manipular a ação dos deuses.
Vodu – Rituais representativos que visam manipular a ação e vida das pessoas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O BOM CAMINHO, UMA ÓTIMA RECOMPENSA


No capítulo 20 do Evangelho segundo São Mateus, Jesus conta a parábola do senhor que contratou vários trabalhadores para trabalharem em sua vinha, uns logo ao iniciar o dia, outros às nove da manhã, outros ao meio dia, três da tarde e por derradeiro contratou alguns perto das cinco. Ao acertar as contas, pagou o mesmo valor, tanto ao que trabalhara o dia inteiro, quanto ao que trabalhara apenas uma hora.

Tal qual a reclamação dos que trabalharam mais, neste episódio, é a reclamação de muitos, que se consideram justos, nos dias de hoje. Estes afirmam que é injusto, da parte de Deus, acolher em seus braços aquele que se arrependeu de suas más obras no último instante de sua vida, a exemplo de um dos ladrões na cruz ao lado da cruz de Jesus, que sem ter feito qualquer boa obra recebeu o paraíso, tal qual uma pessoa que viveu dedicando toda a sua vida à caridade em Cristo.

A resposta que encontramos no relato do evangelista Mateus ainda serve os nossos dias: “por acaso não tenho o direito de fazer o que quero daquilo que é meu?”.

Ora, a Bíblia diz que a salvação pertence ao Senhor. Não pode, Ele, dá-la a quem quiser? Se Ele salva o sujeito mal no último segundo, não deveríamos ficar felizes com isso?

Além do mais, ninguém deveria se sentir injustiçado por dedicar a vida inteira a Deus e receber o mesmo soldo de quem só se lembrou dEle aos 45 do segundo tempo da prorrogação. Ninguém deveria ter inveja deste. Afinal, este pobre coitado passou a vida sem ter tido a felicidade de ser um bom sujeito.

Muita gente acha que fazer o bem é um sacrifício penoso que o torna merecedor do paraíso. Que engano! Não há nada mais prazeroso que servir o Reino de Deus e sua justiça. Não deixe pra amanhã, entregue-se a Cristo hoje, converta-se de seus maus caminhos. A recompensa começa aqui mesmo, na simples satisfação de viver o bom caminho e trabalhar nele desde cedo, carregando nossa cruz e seguindo o Mestre.



Por Pr. Julio Fernandes
Igreja REINA - SC

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

PALAVRAS, MORTAS, OU ETERNAS?

“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mateus 10:28).

“kai mh fobhqhte apo twn apokteinontwn to swma thn de yuchn mh dunamenwn apokteinai fobhqhte de mallon ton dunamenon kai yuchn kai swma apolesai en geennh”. (texto original grego)

Quando Jesus disse estas palavras, Ele bem sabia a dimensão exata do que isso representava para os seus discípulos. Afinal, o Filho de Deus se fez homem, assumindo e vivendo na própria carne todas as emoções e sentimentos que um ser humano pode viver, e o viveu intensamente, até seu último suspiro. Certamente, Ele não se referia unicamente à morte do corpo em si, mas de tudo quanto o corpo (do grego swma) representa. E representa todo universo físico, palpável e mensurável, que norteia a vida. Do mesmo modo, Jesus não só fez menção aos assassinos, mas também àqueles que podem nos trair, roubar, caluniar ou ferir o coração. Assim, não temer “os que matam o corpo” é estar disposto a continuar lutando, mesmo que se perca tudo na vida. Pois, infelizmente, é nessa hora que muitos morrem, mesmo continuando a respirar.

Tradicionalmente, a palavra yuchn é traduzida como alma, o que traz à maioria das pessoas a concepção de um “fantasma” ou um ser espiritual que habita um corpo sem necessariamente depender do corpo para sua existência. Sem querer abordar os méritos ou deméritos das teorias antropológicas religiosas, quero trazer a luz o fato de que yuchn ou psushe tem sua conotação direta com mente e assim podemos relacioná-la aos pensamentos, ideais, conhecimentos, ensinamentos, fé, sabedoria. E é dentro dessa raiz que queremos nos ater, pois acreditamos piamente que essa é a essência do que Cristo estava tratando neste texto.

A análise contextual nos mostra que Cristo estava incentivando aos seus discípulos a proclamarem sua fé, aquilo que aprenderam de Cristo e conseqüentemente criam. A verdade é que eles receberam de Cristo um conhecimento sem precedentes, e seus pensamentos estavam sendo forjados pelo fogo do qual nenhum homem havia provado até então. Assim estava se formando a psique dos Apóstolos. Por certo, não podia, uma psique tão preciosa morrer com os discípulos. Era preciso proclamá-la aos quatro ventos. Mais tarde Jesus diria: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura". Dessa psique, os ensinamentos de Jesus, ainda hoje, depende a transformação do mundo.

As idéias, os pensamentos, as palavras, os conhecimentos, enfim a psique morre com seus portadores quando não é proclamada. E diante dessa perspectiva quero dizer que podem roubar-nos os bens, ferirem-nos o coração, trair-nos deliberadamente, podem até matar-nos o corpo, mas não poderão destruir nosso conhecimento adquirido e transmitido, seja por artigos, livros, pregações, discipulado, conversas e músicas. Não poderão apagar do coração dos que nos ouvem, toda psique transmitida.

Outro fator importante é a compreensão etimológica da palavra inferno, aqui traduzida do original geennh, uma palavra grega usada para referir-se ao vale de Tofete, um grande e conhecido cemitério onde muitas vezes foram realizados sacrifícios de inocentes. A palavra geennh é citada onze vezes, no Novo Testamento, sempre por Jesus, para aludir a morte eterna ou castigo sobre Israel. No caso deste texto, o termo inferno não se refere a um lugar metafísico, assim como o termo alma não se refere a um “ser” metafísico. Jesus referiu-se a geennh como o destino do corpo sem vida, isto é, cemitério. Lugar para onde a psique vai junto de seu portador, quando este a guarda para si e não a anuncia aos outros.

Analisando as palavras de Cristo, me pergunto: O que poderia “fazer perecer no inferno tanto o corpo, quanto a alma”? Simples: O desânimo, o desistir, a timidez. Enfim, o que faz calar, o que intimida, acovarda, que faz morrer os ideais, esmorecer a fé, matar a psique. Não é à toa que Apocalipse 21:8 afirma que os tímidos (ou covardes) morrerão eternamente.

A história nos ensina que grandes homens são aqueles que desafiaram o morno, o normal, a rotina e não omitiram o conhecimento que receberam, não desistiram de lutar pelo que acreditavam, não se intimidaram frente às dificuldades, não traíram a Deus nem à própria consciência. Os grandes homens ousaram falar, mesmo sabendo que seriam criticados e escarnecidos, proclamaram a verdade, mesmo que sua cabeça estivesse em jogo. Não foi por acaso que João Batista, um homem a quem não se atribui nenhum milagre, foi, segundo Jesus, o maior dos profetas. Por quê? Porque não se intimidou frente às ameaças, mas proclamou o tempo de conversão e por isso foi morto. Mataram seu corpo, mas sua voz continua clamando pelos desertos; seu corpo pereceu, mas sua psique vive ainda hoje, gerando frutos para a eternidade.

Nossa passagem nessa terra pode ser insignificante ou transformadora. Tudo depende de como nos portamos diante da própria fé. A morte do corpo é destino certo para todos, mas uma psique forjada no fogo do Espírito de Deus, transformada pelo Evangelho de Cristo e transmitida aos homens e mulheres de todos os povos, é a arma poderosa para transformar este mundo. A Palavra de Jesus é Palavra de Vida, é a Palavra que cremos e anunciamos. Não a levemos para a sepultura, anunciemo-la, eternizemo-la.



Rev. Julio Zamparetti Fernandes
Sermão dominical de 03/08/2008
REINA – Igreja do Futuro

terça-feira, 29 de julho de 2008

NÃO NOS TEMPLOS, MAS SIM NOS POÇOS. (JOÃO 4:1-42)


“e diziam à mulher: Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (João 4:42).

Uma grande mudança estava ocorrendo entre os samaritanos. Eles, que haviam buscado a Jesus por causa dos sinais testemunhados por uma mulher pecadora, de que Jesus havia dissertado detalhes acerca da vida oculta dela, agora não mais se interessavam em tal sinal, mas interessavam-se nas palavras de vida que o Mestre proferia.

Os Samaritanos, bem como os judeus, sempre pediam e dependiam de sinais para crerem. Comumente pediam sinais a Jesus: os fariseus o tentaram diversas vezes pedindo um sinal do céu; os discípulos pediram como sinal, ver ao Pai. O próprio Jesus afirmou que ninguém lhe creria se não vissem sinais (vide João 4:48).

Os sinais tinham seus propósitos especiais: fazer com que uma geração incrédula cresse em Jesus e confirmar a Palavra pregada pelos discípulos (vide Marcos 16:20). O testemunho destes sinais, em especial o da ressurreição de Cristo, fez com que milhares de cristãos dessem suas vidas por Cristo, durante três séculos de intensa perseguição.

Assim, temos, hoje, um evangelho já confirmado a respeito de Cristo já vitorioso. O Evangelho que pregamos não carece de milagres para confirmá-lo, pois não pregamos um Evangelho novo, e sim o “velho” e perfeito Evangelho já confirmado pelos sinais operados por Cristo e os Apóstolos. Não estou dizendo com isso que os milagres cessaram, o que digo é que os milagres de hoje não são operados para confirmar a doutrina, mas tão somente para beneficiar os filhos de Deus. Se alguma doutrina carece de confirmação por milagres, essa doutrina não é de Cristo, pois a doutrina de Cristo, o Evangelho, já esta confirmada.

É nesse entremeio que se destacam os cristãos autênticos dos cristãos meramente nominais. Os nominais continuam buscando sinais. A Bíblia não lhes é suficiente. A ressurreição não lhes representa o devido valor e por isso são insaciáveis. Tais “cristãos” não provaram da água que Cristo dá, pois se assim fizessem, jamais tornariam a ter sede, nunca pediriam outro sinal. Se bebessem da água de Cristo, a sua Palavra, não estariam correndo atrás do pastor mais poderoso, nem da emoção mais forte, ou da unção mais poderosa, muito menos da revelação mais incrível. Estariam satisfeitos, saciados pela Palavra de Deus que é poderosa, Palavra verdadeiramente ungida, Revelação de Deus ao homem. A esse respeito dizia Martinho Lutero: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir".

Os samaritanos estavam começando a provar dessa água. Os sinais antes testemunhados pela mulher deixavam de ser o atrativo a Cristo. Eles estavam descobrindo algo mais precioso. O desejo de Cristo é que todos nós também façamos a mesma descoberta; que deixemos de mirar as mãos de Deus para alvejar seu coração; que o deixemos de amá-lo pelo que Ele faz e amemo-lo pelo que Ele é; que rompamos os padrões estabelecidos pela religiosidade humana e abracemos com todas as forças a vontade divina. Que compreendamos que nós, a igreja, somos o corpo de Cristo na Terra e cada um de nós membros deste corpo. Portanto, somos os pés de Cristo para alcançar os povos, somos as mãos de Cristo para tocar o mundo.

A igreja precisa deixar de estar voltada para si própria, enchendo-se de poder sem ter pra quê, buscando unções que incham o ego. A igreja precisa estar voltada pra fora, proclamando ao mundo o Evangelho de Cristo que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Esse é o verdadeiro poder. Quem está disposto a buscá-lo? Você se dispõe, ou prefere continuar enclausurado no templo, agradecendo por ser um salvo e o mundo que exploda (literalmente).

Cristo nos constituiu luz do mundo para que o mundo recebesse nossa luz. Ele nos fez sal da terra, para que a terra tivesse sabor a partir de nossa simples presença e interação com ela. Não é nas igrejas que a nossa luz é mais requisitada, e sim no mundo. Não é em nossos grupos de estudo que o sal é mais necessário, e sim entre os ímpios. Não foi no templo que Jesus alcançou a mulher samaritana e sim a beira do poço. Da mesma sorte, não é no templo que se concretiza o propósito de Deus para nós, e sim nos poços da vida.

Nos poços, volta-se constantemente para buscar água. Outra vez, e outra vez, outra, e outras mais e mais... A condição de quem busca água junto ao poço é insaciável. Assim está o mundo e, infelizmente, a maioria dos que se dizem cristãos. Pois tanto os prazeres mundanos quanto a busca insaciável por sinais e outros caprichos religiosos (atrás dos quais muitos escondem a vida pecaminosa podre, sem conhecer o poder transformador do Evangelho), são engano e engodo.

Jesus quebrou os padrões estabelecidos pela religiosidade: conversou com uma mulher samaritana, jantou na casa de publicanos, permitiu que prostitutas lavassem seus pés, sem se importar com quem, ou o que, murmuravam dele. Tudo isso porque Jesus veio para os enfermos e não para os sãos. Diante disso eu pergunto: é coerente o corpo de Cristo, hoje, agir diferente do próprio Cristo, seu Mestre?

Para o Mestre, era mais importante e prazeroso falar da salvação aos samaritanos, do que almoçar com seus discípulos, isso porque fazer a vontade do Pai lhe saciava infinitamente mais que a comida terrena. Quando realmente estivermos moldados pelo poder do Espírito Santo, segundo a imagem de Jesus, também agiremos como Cristo e, então, só então, seremos saciados.


Rev. Julio Fernandes
Homilia dominical, pregada em 27/07/2008.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

MULTIPLICAÇÃO, OU DIVISÃO, DOS PÃES?

“Tomando ele os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para que os distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes” (Marcos 6:41).

Embora os enunciados colocados sobre os textos que relatam este episódio e o costume popular digam que este milagre consista de uma multiplicação, o texto bíblico afirma uma divisão. Lembre-se de que os enunciados foram colados apenas para facilitar o manuseio da Bíblia, no entanto, não é parte integrante da mesma, não consta nos originais.

É o fascínio pelo sobrenatural que tem induzido gerações a crerem no que houver de mais sensacional possível, ainda que impossível seja, a despeito da razão e a sensatez. Assim propaga-se o sempre crescente número de crendices e religiões, bem como as interpretações mais mirabolantes e estúpidas que se faz das palavras sérias e divinamente inspiradas das Escrituras Sagradas.

Tão claro quanto o que de mais claro pode haver, diz a Bíblia que Jesus repartiu, não multiplicou. Alguém perguntaria: Qual o milagre disso? E eu digo: O milagre está no poder da influência que tem um gesto. Ora, se um garoto pôde ter cinco pães e dois peixes para dispor diante daquela multidão, é estupidez pensar que, numa multidão que, possivelmente, ultrapassava vinte mil pessoas, ninguém mais tivesse o que compartilhar. Assim o gesto de Cristo, dando graças por tão pouco e repartindo o tão pouco que tinha a tanta gente, desencadeou o maior milagre que aquela gente poderia não só presenciar, mas também viver, o milagre do partilhar. E todos os que retinham algum alimento consigo, um após outro, começaram a partilhar também, movidos pelo espírito cristão.

Digo que desta forma este foi o maior milagre, porque me parece mais fácil acontecer o milagre quando tudo depende exclusivamente de Deus, sem interferência humana. Em outras palavras, seria mais fácil para Jesus transformar pedras em pães do que convencer a todos que tinham pouco ou muito a repartirem com quem nada tinham. Afinal, todos aplaudem as ações quando estas não envolvem esforços mútuos e um preço a pagar por parte de cada um.

Todos querem que o presidente resolva os problemas dos menores abandonados, mas pouquíssimos se dispõem a adotar um destes pequeninos. Todos anseiam e necessitam de um ar mais puro, mas poucos se preocupam com a poluição causada por seus carros, motos, fábricas, queimadas, etc. Todos esperam que os órgãos ambientais façam algo para salvar o meio ambiente, mas quase ninguém pensa na natureza quando o lucro está em jogo. Da mesma forma, todos esperam um milagre de multiplicação vindo dos céus para que a fome acabe, para que não haja mais miséria, entretanto, não querem ver que o milagre da tal multiplicação só acontece por meio da liberalidade e integração de todos neste partir do pão.


“Todos comeram e se fartaram; e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e de peixe” (Marcos 6:42,43).

É interessante notar que se o milagre fosse realmente de multiplicação, quando a última pessoa tivesse sido servida, tal multiplicação cessaria. Foi assim que se deu no relato de 2 Reis capítulo 4, quando foi enchida todas as vasilhas, imediatamente parou de correr o azeite. Entretanto, neste episódio, todos se fartaram e ainda assim sobrou. Enquanto no episódio do azeite a multiplicação ocorreu na medida certa, no caso dos pães a medida foi muito além do necessário.

É bem possível que tenhamos pedido o milagre errado a Deus. Pedimos que Ele desça sua provisão, diretamente dos céus para os carentes, quando na verdade tal provisão já desceu e está exatamente no que temos em mãos. O milagre que necessitamos é o aprender a partilhar. Isso mudaria radicalmente nosso bairro, nossa cidade, o Brasil e o mundo. Tal milagre não proporcionaria apenas o suprimento das necessidades de cada um, mas, com toda certeza, todos se fartariam e ainda sobraria abundantemente.


“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai” (João 14:12).

Tais palavras de Jesus são verdadeiras e certeiras. Todos os milagres de Jesus foram repetidos por seus primeiros discípulos e repetidos periodicamente na história da igreja até aos dias de hoje. Mas curiosamente, seus discípulos não repetiram a multiplicação dos pães. Terá sido uma falha dos discípulos, ou um engano do Mestre? Nem um, nem outro. Afinal, os discípulos não só fizeram aquela mesma obra, como a fizeram maior ainda. Você já percebeu que enquanto Cristo promoveu a comunhão de pães e peixes, os apóstolos realizaram não só a comunhão dos pães, mas de todos os bens? Constatamos isso, no livro de Atos dos Apóstolos, ao ver que todos tinham tudo em comum e ninguém tinha falta de nada.

Não defendo que se implante hoje o mesmo sistema econômico implantado na igreja daquele tempo. Mas defendo a responsabilidade social que deve ser assumida pela igreja em geral. Que ninguém que se diga cristão possa viver indiferente frente às injustiças; que ninguém se sinta realizado enquanto milhares vivem em baixo de pontes ou barracos em condições sub-humanas; que ninguém se sinta confortável sabendo que tantos morrem de frio; que ninguém se sinta satisfeito enquanto muitos morrem de fome. Que nosso verdadeiro conforto, realização e satisfação sejam realmente plenos no conforto, na realização e na satisfação do próximo. Que ninguém rogue a Deus pelo fim da fome, sem antes abrir a mente, o coração e as mãos em auxílio ao próximo. Quando assim for, estaremos prestes a fazer, de fato, a obra que Jesus fez, e a faremos maior ainda.


Rev. Julio Fernandes

sábado, 10 de novembro de 2007

O REINO DE DEUS

UM GRÃO DE MOSTARDA

“A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra” (Marcos 4:30-32).

A comparação do Reino de Deus com uma semente é demasiadamente apropriada. Pois a manifestação do Reino está intrinsecamente ligada a Palavra de Deus, que é a semente. Um não subsiste sem o outro.

A princípio, a comparação do Reino a uma semente de mostarda parece ser antagônica, uma vez que não há pequenez alguma nessa semente-Reino-Palavra-de-Deus. Muito pelo contrário, por toda a Bíblia a Palavra e o Reino de Cristo são exaltados sobremaneira.

A mensagem do Reino se assemelha a semente de mostarda não no que concerne ao seu tamanho, mas na importância com que um mundo corrompido é capaz de vê-la. Pois o Reino de Deus anda no sentido contrário ao que anda os interesses do mundo, fazendo parecer loucura, utopia, algo impraticável ou sem importância.

Enquanto o mundo diz “só vou gostar de quem gosta de mim”, o evangelho do Reino diz “amai os vossos inimigos”; enquanto o mundo prega o capitalismo selvagem, o Evangelho do Reino propõe a liberalidade em dar; enquanto o mundo diz “O mundo é dos espertos” o evangelho do Reino diz “os mansos herdarão a terra”; enquanto o mundo ensina meios de alto-projeção, a mensagem do Reino é: “quem se humilha será exaltado”; o mundo ensina que o menor deve servir o maior e na briga pelo maior posto quem pode mais chora menos, já na hierarquia do Evangelho do Reino o maior é quem serve o menor e todos são chamados a servir o próximo e considera-lo superior a si próprio.

Em palestras motivacionais de empresas ensina-se que seu nome deve constar apenas nas agendas de pessoas que são interessantes pra você, que possam lhe ser úteis. Com certeza isso poderá lhe render bons negócios e lhe proporcionar grandes lucros. No entanto, o Reino de Deus caminha em sentido oposto, pois sua proposta não se dá em tornar-lhe rico (se essa for a proposta que você tem ouvido de seu líder espiritual, você está sendo enganado), nem em fazer-lhe estar bem servido de contatos interessantes.

A proposta do Evangelho do Reino é de que seu nome e seu número de telefone estejam – não nas agendas caras de figurões importantes, mas – nos pedaços de papel amarrotado nos bolsos de miseráveis e carentes que de fato necessitam de você. Que você esteja disponível quando este lhe chamar, para que de fato você tenha alguma utilidade nesta vida.

Você até pode servir a “superiores”, mas “superiores” nunca se consideram necessitados dos serviços de um “inferior” e assim fazem parecer que os mais ilustres serviços pareçam verdadeiras inutilidades. No entanto, sirva os carentes e verás quão útil te sentirás.

O Evangelho do Reino é comparado a uma semente de mostarda porque não é vistoso aos olhos do mundo, não é atraente para o ganancioso, nem interessante para quem busca satisfazer unicamente seus desejos pessoais. O Evangelho do Reino é comparado a uma semente tão pequena porque anda na contramão de um sistema capitalista, tornando seus valores quase invisíveis aos “cegos do castelo”.


UM REINO QUE CRESCE

Ao contrário do que muitos afirmam, nós não estamos caminhando para o caos. Muito pelo contrário, estamos saindo dele. Isso porque o Reino que pregamos é uma mensagem incomparavelmente poderosa que não foi posta na terra como uma árvore a fim de terminar como um grão de mostarda, mas sim foi posta como um pequeno grão para tornar-se a maior de todas as hortaliças, deitando seus grandes ramos sobre a face da terra.

A alusão a uma grande árvore da qual seus ramos servem de casa para os pássaros, lembra a mesma metáfora na qual Daniel 4:21 referia-se ao domínio mundial de Nabucodonosor. Não dá para deixar de conotar isso ao fato de que o reino de Jesus Cristo foi iniciado, sobre todo o universo, desde sua ascensão ao céu e continuará até que ponha todos os seus inimigos debaixo de seus pés (leia Salmo 110:1 e Atos 2:34,35).

Alguém poderia objetar, afirmando que o mundo vai de mal a pior. Isso, no entanto, não é bem verdade e mesmo que fosse nossa fé não é respaldada em circunstância, mas sim nas promessas da Sagrada Escritura. Essas promessas dizem respeito a uma igreja vitoriosa, chamada para ser Reino e Sacerdócio, cumprindo o papel de ser sal da terra e luz do mundo.

Dizer que o mundo está cada vez pior é se esquecer do “nosso passado de absurdos gloriosos”, quando tínhamos em alta estima o preconceito racial, apoiávamos a escravatura (até mesmo a igreja “primitiva” a achava normal), destruíamos o planeta sem qualquer consciência ambiental. E ainda mais, até bem pouco tempo o analfabetismo, a desnutrição e a mortalidade infantil eram tratados como algo normal.

Não estou dizendo com isso que o mundo de hoje é um “mar de rosas”, mas sim que o evangelho é o poder para transformá-lo e a missão da igreja é anunciar esse evangelho transformador. Os ramos desse Reino se estendem sobre a terra trazendo saúde, paz, justiça social, igualdade, liberdade, enfim “dias melhores” para a humanidade. Sob a sombra dessa árvore encontramos abrigo. Afinal “o melhor de Deus ainda está por vir”.

Muitas foram as contribuições do evangelho de Cristo para a humanidade. Muitas mais serão se o povo que se chama pelo nome de Cristo tiver a consciência de quão poderosa é a fé que professam.

“Só eu conheço os planos que tenho para vocês: prosperidade e não desgraça e um futuro cheio de esperança, diz o Senhor” (Jeremias 29:11).