terça-feira, 29 de julho de 2008

NÃO NOS TEMPLOS, MAS SIM NOS POÇOS. (JOÃO 4:1-42)


“e diziam à mulher: Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (João 4:42).

Uma grande mudança estava ocorrendo entre os samaritanos. Eles, que haviam buscado a Jesus por causa dos sinais testemunhados por uma mulher pecadora, de que Jesus havia dissertado detalhes acerca da vida oculta dela, agora não mais se interessavam em tal sinal, mas interessavam-se nas palavras de vida que o Mestre proferia.

Os Samaritanos, bem como os judeus, sempre pediam e dependiam de sinais para crerem. Comumente pediam sinais a Jesus: os fariseus o tentaram diversas vezes pedindo um sinal do céu; os discípulos pediram como sinal, ver ao Pai. O próprio Jesus afirmou que ninguém lhe creria se não vissem sinais (vide João 4:48).

Os sinais tinham seus propósitos especiais: fazer com que uma geração incrédula cresse em Jesus e confirmar a Palavra pregada pelos discípulos (vide Marcos 16:20). O testemunho destes sinais, em especial o da ressurreição de Cristo, fez com que milhares de cristãos dessem suas vidas por Cristo, durante três séculos de intensa perseguição.

Assim, temos, hoje, um evangelho já confirmado a respeito de Cristo já vitorioso. O Evangelho que pregamos não carece de milagres para confirmá-lo, pois não pregamos um Evangelho novo, e sim o “velho” e perfeito Evangelho já confirmado pelos sinais operados por Cristo e os Apóstolos. Não estou dizendo com isso que os milagres cessaram, o que digo é que os milagres de hoje não são operados para confirmar a doutrina, mas tão somente para beneficiar os filhos de Deus. Se alguma doutrina carece de confirmação por milagres, essa doutrina não é de Cristo, pois a doutrina de Cristo, o Evangelho, já esta confirmada.

É nesse entremeio que se destacam os cristãos autênticos dos cristãos meramente nominais. Os nominais continuam buscando sinais. A Bíblia não lhes é suficiente. A ressurreição não lhes representa o devido valor e por isso são insaciáveis. Tais “cristãos” não provaram da água que Cristo dá, pois se assim fizessem, jamais tornariam a ter sede, nunca pediriam outro sinal. Se bebessem da água de Cristo, a sua Palavra, não estariam correndo atrás do pastor mais poderoso, nem da emoção mais forte, ou da unção mais poderosa, muito menos da revelação mais incrível. Estariam satisfeitos, saciados pela Palavra de Deus que é poderosa, Palavra verdadeiramente ungida, Revelação de Deus ao homem. A esse respeito dizia Martinho Lutero: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida, como para o que há de vir".

Os samaritanos estavam começando a provar dessa água. Os sinais antes testemunhados pela mulher deixavam de ser o atrativo a Cristo. Eles estavam descobrindo algo mais precioso. O desejo de Cristo é que todos nós também façamos a mesma descoberta; que deixemos de mirar as mãos de Deus para alvejar seu coração; que o deixemos de amá-lo pelo que Ele faz e amemo-lo pelo que Ele é; que rompamos os padrões estabelecidos pela religiosidade humana e abracemos com todas as forças a vontade divina. Que compreendamos que nós, a igreja, somos o corpo de Cristo na Terra e cada um de nós membros deste corpo. Portanto, somos os pés de Cristo para alcançar os povos, somos as mãos de Cristo para tocar o mundo.

A igreja precisa deixar de estar voltada para si própria, enchendo-se de poder sem ter pra quê, buscando unções que incham o ego. A igreja precisa estar voltada pra fora, proclamando ao mundo o Evangelho de Cristo que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Esse é o verdadeiro poder. Quem está disposto a buscá-lo? Você se dispõe, ou prefere continuar enclausurado no templo, agradecendo por ser um salvo e o mundo que exploda (literalmente).

Cristo nos constituiu luz do mundo para que o mundo recebesse nossa luz. Ele nos fez sal da terra, para que a terra tivesse sabor a partir de nossa simples presença e interação com ela. Não é nas igrejas que a nossa luz é mais requisitada, e sim no mundo. Não é em nossos grupos de estudo que o sal é mais necessário, e sim entre os ímpios. Não foi no templo que Jesus alcançou a mulher samaritana e sim a beira do poço. Da mesma sorte, não é no templo que se concretiza o propósito de Deus para nós, e sim nos poços da vida.

Nos poços, volta-se constantemente para buscar água. Outra vez, e outra vez, outra, e outras mais e mais... A condição de quem busca água junto ao poço é insaciável. Assim está o mundo e, infelizmente, a maioria dos que se dizem cristãos. Pois tanto os prazeres mundanos quanto a busca insaciável por sinais e outros caprichos religiosos (atrás dos quais muitos escondem a vida pecaminosa podre, sem conhecer o poder transformador do Evangelho), são engano e engodo.

Jesus quebrou os padrões estabelecidos pela religiosidade: conversou com uma mulher samaritana, jantou na casa de publicanos, permitiu que prostitutas lavassem seus pés, sem se importar com quem, ou o que, murmuravam dele. Tudo isso porque Jesus veio para os enfermos e não para os sãos. Diante disso eu pergunto: é coerente o corpo de Cristo, hoje, agir diferente do próprio Cristo, seu Mestre?

Para o Mestre, era mais importante e prazeroso falar da salvação aos samaritanos, do que almoçar com seus discípulos, isso porque fazer a vontade do Pai lhe saciava infinitamente mais que a comida terrena. Quando realmente estivermos moldados pelo poder do Espírito Santo, segundo a imagem de Jesus, também agiremos como Cristo e, então, só então, seremos saciados.


Rev. Julio Fernandes
Homilia dominical, pregada em 27/07/2008.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

MULTIPLICAÇÃO, OU DIVISÃO, DOS PÃES?

“Tomando ele os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para que os distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes” (Marcos 6:41).

Embora os enunciados colocados sobre os textos que relatam este episódio e o costume popular digam que este milagre consista de uma multiplicação, o texto bíblico afirma uma divisão. Lembre-se de que os enunciados foram colados apenas para facilitar o manuseio da Bíblia, no entanto, não é parte integrante da mesma, não consta nos originais.

É o fascínio pelo sobrenatural que tem induzido gerações a crerem no que houver de mais sensacional possível, ainda que impossível seja, a despeito da razão e a sensatez. Assim propaga-se o sempre crescente número de crendices e religiões, bem como as interpretações mais mirabolantes e estúpidas que se faz das palavras sérias e divinamente inspiradas das Escrituras Sagradas.

Tão claro quanto o que de mais claro pode haver, diz a Bíblia que Jesus repartiu, não multiplicou. Alguém perguntaria: Qual o milagre disso? E eu digo: O milagre está no poder da influência que tem um gesto. Ora, se um garoto pôde ter cinco pães e dois peixes para dispor diante daquela multidão, é estupidez pensar que, numa multidão que, possivelmente, ultrapassava vinte mil pessoas, ninguém mais tivesse o que compartilhar. Assim o gesto de Cristo, dando graças por tão pouco e repartindo o tão pouco que tinha a tanta gente, desencadeou o maior milagre que aquela gente poderia não só presenciar, mas também viver, o milagre do partilhar. E todos os que retinham algum alimento consigo, um após outro, começaram a partilhar também, movidos pelo espírito cristão.

Digo que desta forma este foi o maior milagre, porque me parece mais fácil acontecer o milagre quando tudo depende exclusivamente de Deus, sem interferência humana. Em outras palavras, seria mais fácil para Jesus transformar pedras em pães do que convencer a todos que tinham pouco ou muito a repartirem com quem nada tinham. Afinal, todos aplaudem as ações quando estas não envolvem esforços mútuos e um preço a pagar por parte de cada um.

Todos querem que o presidente resolva os problemas dos menores abandonados, mas pouquíssimos se dispõem a adotar um destes pequeninos. Todos anseiam e necessitam de um ar mais puro, mas poucos se preocupam com a poluição causada por seus carros, motos, fábricas, queimadas, etc. Todos esperam que os órgãos ambientais façam algo para salvar o meio ambiente, mas quase ninguém pensa na natureza quando o lucro está em jogo. Da mesma forma, todos esperam um milagre de multiplicação vindo dos céus para que a fome acabe, para que não haja mais miséria, entretanto, não querem ver que o milagre da tal multiplicação só acontece por meio da liberalidade e integração de todos neste partir do pão.


“Todos comeram e se fartaram; e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e de peixe” (Marcos 6:42,43).

É interessante notar que se o milagre fosse realmente de multiplicação, quando a última pessoa tivesse sido servida, tal multiplicação cessaria. Foi assim que se deu no relato de 2 Reis capítulo 4, quando foi enchida todas as vasilhas, imediatamente parou de correr o azeite. Entretanto, neste episódio, todos se fartaram e ainda assim sobrou. Enquanto no episódio do azeite a multiplicação ocorreu na medida certa, no caso dos pães a medida foi muito além do necessário.

É bem possível que tenhamos pedido o milagre errado a Deus. Pedimos que Ele desça sua provisão, diretamente dos céus para os carentes, quando na verdade tal provisão já desceu e está exatamente no que temos em mãos. O milagre que necessitamos é o aprender a partilhar. Isso mudaria radicalmente nosso bairro, nossa cidade, o Brasil e o mundo. Tal milagre não proporcionaria apenas o suprimento das necessidades de cada um, mas, com toda certeza, todos se fartariam e ainda sobraria abundantemente.


“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai” (João 14:12).

Tais palavras de Jesus são verdadeiras e certeiras. Todos os milagres de Jesus foram repetidos por seus primeiros discípulos e repetidos periodicamente na história da igreja até aos dias de hoje. Mas curiosamente, seus discípulos não repetiram a multiplicação dos pães. Terá sido uma falha dos discípulos, ou um engano do Mestre? Nem um, nem outro. Afinal, os discípulos não só fizeram aquela mesma obra, como a fizeram maior ainda. Você já percebeu que enquanto Cristo promoveu a comunhão de pães e peixes, os apóstolos realizaram não só a comunhão dos pães, mas de todos os bens? Constatamos isso, no livro de Atos dos Apóstolos, ao ver que todos tinham tudo em comum e ninguém tinha falta de nada.

Não defendo que se implante hoje o mesmo sistema econômico implantado na igreja daquele tempo. Mas defendo a responsabilidade social que deve ser assumida pela igreja em geral. Que ninguém que se diga cristão possa viver indiferente frente às injustiças; que ninguém se sinta realizado enquanto milhares vivem em baixo de pontes ou barracos em condições sub-humanas; que ninguém se sinta confortável sabendo que tantos morrem de frio; que ninguém se sinta satisfeito enquanto muitos morrem de fome. Que nosso verdadeiro conforto, realização e satisfação sejam realmente plenos no conforto, na realização e na satisfação do próximo. Que ninguém rogue a Deus pelo fim da fome, sem antes abrir a mente, o coração e as mãos em auxílio ao próximo. Quando assim for, estaremos prestes a fazer, de fato, a obra que Jesus fez, e a faremos maior ainda.


Rev. Julio Fernandes

sábado, 10 de novembro de 2007

O REINO DE DEUS

UM GRÃO DE MOSTARDA

“A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra” (Marcos 4:30-32).

A comparação do Reino de Deus com uma semente é demasiadamente apropriada. Pois a manifestação do Reino está intrinsecamente ligada a Palavra de Deus, que é a semente. Um não subsiste sem o outro.

A princípio, a comparação do Reino a uma semente de mostarda parece ser antagônica, uma vez que não há pequenez alguma nessa semente-Reino-Palavra-de-Deus. Muito pelo contrário, por toda a Bíblia a Palavra e o Reino de Cristo são exaltados sobremaneira.

A mensagem do Reino se assemelha a semente de mostarda não no que concerne ao seu tamanho, mas na importância com que um mundo corrompido é capaz de vê-la. Pois o Reino de Deus anda no sentido contrário ao que anda os interesses do mundo, fazendo parecer loucura, utopia, algo impraticável ou sem importância.

Enquanto o mundo diz “só vou gostar de quem gosta de mim”, o evangelho do Reino diz “amai os vossos inimigos”; enquanto o mundo prega o capitalismo selvagem, o Evangelho do Reino propõe a liberalidade em dar; enquanto o mundo diz “O mundo é dos espertos” o evangelho do Reino diz “os mansos herdarão a terra”; enquanto o mundo ensina meios de alto-projeção, a mensagem do Reino é: “quem se humilha será exaltado”; o mundo ensina que o menor deve servir o maior e na briga pelo maior posto quem pode mais chora menos, já na hierarquia do Evangelho do Reino o maior é quem serve o menor e todos são chamados a servir o próximo e considera-lo superior a si próprio.

Em palestras motivacionais de empresas ensina-se que seu nome deve constar apenas nas agendas de pessoas que são interessantes pra você, que possam lhe ser úteis. Com certeza isso poderá lhe render bons negócios e lhe proporcionar grandes lucros. No entanto, o Reino de Deus caminha em sentido oposto, pois sua proposta não se dá em tornar-lhe rico (se essa for a proposta que você tem ouvido de seu líder espiritual, você está sendo enganado), nem em fazer-lhe estar bem servido de contatos interessantes.

A proposta do Evangelho do Reino é de que seu nome e seu número de telefone estejam – não nas agendas caras de figurões importantes, mas – nos pedaços de papel amarrotado nos bolsos de miseráveis e carentes que de fato necessitam de você. Que você esteja disponível quando este lhe chamar, para que de fato você tenha alguma utilidade nesta vida.

Você até pode servir a “superiores”, mas “superiores” nunca se consideram necessitados dos serviços de um “inferior” e assim fazem parecer que os mais ilustres serviços pareçam verdadeiras inutilidades. No entanto, sirva os carentes e verás quão útil te sentirás.

O Evangelho do Reino é comparado a uma semente de mostarda porque não é vistoso aos olhos do mundo, não é atraente para o ganancioso, nem interessante para quem busca satisfazer unicamente seus desejos pessoais. O Evangelho do Reino é comparado a uma semente tão pequena porque anda na contramão de um sistema capitalista, tornando seus valores quase invisíveis aos “cegos do castelo”.


UM REINO QUE CRESCE

Ao contrário do que muitos afirmam, nós não estamos caminhando para o caos. Muito pelo contrário, estamos saindo dele. Isso porque o Reino que pregamos é uma mensagem incomparavelmente poderosa que não foi posta na terra como uma árvore a fim de terminar como um grão de mostarda, mas sim foi posta como um pequeno grão para tornar-se a maior de todas as hortaliças, deitando seus grandes ramos sobre a face da terra.

A alusão a uma grande árvore da qual seus ramos servem de casa para os pássaros, lembra a mesma metáfora na qual Daniel 4:21 referia-se ao domínio mundial de Nabucodonosor. Não dá para deixar de conotar isso ao fato de que o reino de Jesus Cristo foi iniciado, sobre todo o universo, desde sua ascensão ao céu e continuará até que ponha todos os seus inimigos debaixo de seus pés (leia Salmo 110:1 e Atos 2:34,35).

Alguém poderia objetar, afirmando que o mundo vai de mal a pior. Isso, no entanto, não é bem verdade e mesmo que fosse nossa fé não é respaldada em circunstância, mas sim nas promessas da Sagrada Escritura. Essas promessas dizem respeito a uma igreja vitoriosa, chamada para ser Reino e Sacerdócio, cumprindo o papel de ser sal da terra e luz do mundo.

Dizer que o mundo está cada vez pior é se esquecer do “nosso passado de absurdos gloriosos”, quando tínhamos em alta estima o preconceito racial, apoiávamos a escravatura (até mesmo a igreja “primitiva” a achava normal), destruíamos o planeta sem qualquer consciência ambiental. E ainda mais, até bem pouco tempo o analfabetismo, a desnutrição e a mortalidade infantil eram tratados como algo normal.

Não estou dizendo com isso que o mundo de hoje é um “mar de rosas”, mas sim que o evangelho é o poder para transformá-lo e a missão da igreja é anunciar esse evangelho transformador. Os ramos desse Reino se estendem sobre a terra trazendo saúde, paz, justiça social, igualdade, liberdade, enfim “dias melhores” para a humanidade. Sob a sombra dessa árvore encontramos abrigo. Afinal “o melhor de Deus ainda está por vir”.

Muitas foram as contribuições do evangelho de Cristo para a humanidade. Muitas mais serão se o povo que se chama pelo nome de Cristo tiver a consciência de quão poderosa é a fé que professam.

“Só eu conheço os planos que tenho para vocês: prosperidade e não desgraça e um futuro cheio de esperança, diz o Senhor” (Jeremias 29:11).

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

BÊNÇÃO POR MENTIRA?

O que já faz parte do cotidiano popular tem, também, ganhado o contexto diário de quem busca respaldar sua vida pela Palavra de Deus. Ou seja, muita gente tem tentado justificar suas “mentirinhas bem intencionadas” usando de textos bíblicos, fazendo má interpretação dos mesmos.

O texto predileto de quem quer justificar suas mentiras é o de Gênesis 27, onde entendem que a mentira tenha sido o meio pelo qual Jacó pôde se apropriar da promessa de Deus para sua vida. Mas será realmente possível que uma bênção venha por meio de uma mentira? Deus seria cúmplice de uma mentira? Obviamente, não.

Passemos então a estudar alguns pontos importantes deste episódio para que tenhamos a compreensão do que, de fato, a mentira pode produzir.


O Erro de Isaque

Em Gênesis 25:23, Rebeca recebera de Deus a promessa de que, dos gêmeos que ela estava para dar a luz, nasceriam duas grandes nações e que o mais velho serviria o mais novo. O fato é que possivelmente Isaque, seu esposo, desconhecia a palavra que Deus falara, ou se conhecia, não a considerou na hora de decidir a quem entregar a primazia de sua bênção.

Se Isaque não sabia a respeito do que Deus havia falado a sua esposa, isso demonstra um problema de relação conjugal, a falta de diálogo. De fato, muitos transtornos conjugais ou mesmo sociais seriam evitados se houvesse mais diálogo.

Se Isaque sabia do que Deus havia dito a Rebeca, então ele ignorou a voz de Deus em prol de atender o desejo de seu coração movido pela circunstância. Em Gênesis 27:4, Isaque pediu a Esaú, seu filho mais velho, que lhe trouxesse um guisado conforme ele gostava, para que lhe abençoasse antes de morrer. Nesse ponto eu aprendo algo que certamente Isaque sabia: A bênção com que podemos abençoar alguém não acontece da boca pra fora, é preciso sair da alma. Isaque julgou que se o filho lhe alegrasse o coração com uma gostosa refeição, sua alma estaria mais propensa a abençoá-lo. Quanto a isso Isaque estava certo. O erro foi ter condicionado a bênção e sujeitado o seu coração a uma circunstância de cunho material e não a Palavra de Deus.

Muitas são as vezes em que cometemos o mesmo erro de Isaque. Baseamos nossas decisões com vistas ao bem estar próprio, em detrimento do bem comum; ao que gostamos, em detrimento ao que é necessário; ao resultado imediato, em detrimento ao que é correto; em outras palavras, andamos segundo nosso próprio conselho, ao invés de seguirmos o conselho de Deus.


O Erro de Rebeca

Rebeca não esperou. Precisamos compreender o que significa esperança. Muitos têm renegado esse valioso fruto espiritual por acharem que a ação de esperar não se trata de ação e sim de inércia. Quão enganados estão! Esperar em Deus significa agir sem trair seus princípios, sem tomar atalhos, significa trabalhar sem trapacear, confiando que seus objetivos serão conquistados honestamente. Esperar em Deus é buscar conquistar o que se deseja sem usar de mentiras, pois de outra forma, melhor renegar tal conquista.

A Voz do Senhor ecoava no coração de Rebeca, tão intensamente, que, em sua convicção, ela não pensou duas vezes em tomar suas próprias providências, seu próprio meio, para que aquela palavra se cumprisse. Ora, não poderia ela ter usado essa mesma convicção para esperar no Senhor, confiando que Ele proveria os seus próprios meios para chegar aos fins que Ele mesmo havia determinado?

A falta de confiança é um outro sério fator de conflitos. Ela faz com que percamos a esperança e nessa hora agimos por impulso e tomamos decisões das quais geralmente nos arrependemos.


O Erro de Jacó

Gênesis 27:11-13, diz que Jacó temia ser amaldiçoado, caso seu pai descobrisse toda farsa. O medo de ser descoberto era a única coisa que continha Jacó, pois seu desejo já o havia cegado em relação ao meio inescrupuloso do qual escolhera para agir. Jacó tinha medo de ser descoberto por seu pai, mas seu coração corrompido não percebia seu pecado, nem que de Deus nada fica encoberto.

Parece-me que ainda hoje continuamos a cair no mesmo erro! É como se não houvesse o que temer, conquanto tudo fique encoberto. O sentimento de impunidade encoraja o crime, a fraude, a corrupção, etc. Além disso, a morte espiritual do homem o torna incapaz de perceber ou pensar que ainda que jamais tivéssemos que, um dia, prestar contas, cabe-nos a consciência de que somos feitos para servir e contribuir para um mundo onde a verdade, a honestidade e a paz seja o legado perpétuo.


Um Grande Engano!

Jacó, ao contrário do que muitos pensam, não foi abençoado por meio de sua mentira. Ao contrário! Por sua mentira ele fugiu de seu irmão por vinte anos, foi enganado diversas vezes, e quando voltou, voltou oferecendo seus servos, seus filhos e a si próprio como escravos a seu irmão, implorando o perdão de Esaú. Só não se tornou escravo porque Esaú o perdoou. A mentira de Jacó lhe rendeu vinte anos de angústia e sofrimentos pelos quais ele aprendeu as conseqüências da mentira.

Se Jacó fora abençoado no ato da mentira a seu pai, por que precisou, depois, lutar com Deus para ser abençoado? A benção de Jacó não veio de sua mentira, mas de Deus que mudou o seu nome de Jacó, que significava “enganador, mentiroso”, para Israel, que quer dizer: “o que governa com Deus”. Saibamos também nós, governarmos com Deus, tomarmos nossas decisões em Deus, que é a verdade, e nEle não há mentira.

“Eis as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas, segundo a verdade, em favor da paz” (Zacarias 8:16).


Pr. Julio Zamparetti Fernandes

domingo, 7 de outubro de 2007

DESTRUIÇÃO OU RESTAURAÇÃO?

Nos últimos anos, em muitas igrejas, tem-se dado forte ênfase à anunciação da destruição, ou fim do mundo. Teologias complexas têm sido fundamentadas sobre este artifício com intuito de amedrontar as pessoas a fim de que estas venham a aderir sua igreja. De fato, muitas pessoas temerosas da condenação eterna subseqüente a tal destruição, têm se agarrado aos ensinamentos religiosos na ânsia de salvar suas próprias almas por meio de obras terrenas. Isso parece bom sob o ponto de vista de que muitos procuram melhorar suas atitudes. Todavia, será que o medo do fim é a motivação certa para levar o indivíduo a uma mudança?

Não é a toa que tem se desenvolvido no meio popular a crença de que Deus é um pai austero e inacessível. Pois esse tem sido o subterfúgio pelo qual a religião tem dominado o povo e mantido-o sob seu poder. Entretanto, não é este o evangelho que Cristo nos ensinou.

Muitos se apegam ao texto de Mateus 24 para sugerir que Cristo estivesse falando a respeito do fim do mundo. Esses, por interesse de defender seus conceitos pré-estabelecidos, tolhem a verdade e destorcem os fatos claros detalhados por Jesus.

Em primeiro lugar, em Mateus 24:34 Jesus afirma que todos os acontecimentos por Ele descritos aconteceriam ainda naquela geração. Ou seja, Jesus afirmou que dentre aqueles de sua geração, haveria quem ainda estivesse vivo quando tudo o que Ele descreveu acontecesse. Pelo que, o cumprimento das profecias de Cristo está constatado, claramente, nos relatos de historiadores como Flávio Joséfo, Eusébio e Tácito, quando descrevem os acontecimentos anteriores à queda de Jerusalém, no ano 70 d.C., quando muitos dos que ouviram Jesus falar, ainda estavam vivos.
Em segundo lugar, o termo original, traduzido por mundo no verso 3, é aiõn, que significa “era, idade, período de tempo”. Portanto, a pergunta dos discípulos tratava-se do fim da era judaica, da destruição de Jerusalém e não da destruição ou fim do mundo. Assim, a resposta de Jesus era concernente à pergunta dos discípulos, ou seja, o que Jesus predisse foi o fim de Israel, o fim da antiga aliança e o surgimento da era da redenção pela graça de Cristo.

“Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). Temos com Deus uma nova vida, uma nova aliança, uma aliança eterna, um novo templo, perpétuo, feito não por mãos humanas, e infinitamente mais glorioso que o antigo. A comissão de Cristo para a sua igreja é anunciar as boas novas. Boas novas consiste em regeneração, restauração, renovação, liberdade e vida, abrangendo os aspectos espirituais, familiares, culturais, ambientais e sociais. Nosso compromisso com Cristo deve ser respaldado no amor de Deus e amor a Deus, um compromisso caracterizado na caridade. A missão da igreja é promover o reino de Cristo sobre a terra, terra sobre a qual Deus O fez herdeiro, e a nós fez co-herdeiros. A igreja não pode ser displicente quanto ao cuidado do planeta, sob argumento de que tudo esteja enfadado a destruição, pois tal argumento é falso e sem respaldo bíblico.

Me atrevo a crer no amanhã
Futuro há pra criação
Tão alto e profundo é o amor que opera pela fé
(Canção de Bispo Hermes Fernandes)

Pr. Julio Zamparetti Fernandes

sábado, 29 de setembro de 2007

Por que uma pessoa já nasce sofrendo?

Muitas pessoas têm quisto justificar essa questão. No afã de formular tal justificativa, se perdem na consideração mais simples e verdadeira a se fazer: Deus é justo e justificador. Deus não precisa de alguém que advogue por Ele, pois Ele é o justo juiz e Ele é quem advoga por nós, porque nós, sim, necessitamos de um bom, aliás, perfeito advogado. Jamais poderíamos advogar em favor de quem estamos longe de compreender suas razões. No entanto, em face à necessidade carnal de justificarmos Deus ante os acontecimentos, as fatalidades, os acidentes, as dificuldades, criamos conceitos humanos de causa e efeito para de alguma forma convencermos a nós mesmos de que Deus foi justo quanto aquilo que no íntimo consideramos uma verdadeira injustiça. Em outras palavras, queremos enquadrar a justiça divina aos nossos padrões e conceitos. A isso já rebatia o apóstolo Paulo: "Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!" (Romanos 11:33b)

Nessas horas, os espíritas justificam o efeito alegando que sua causa é o carma, os evangélicos justificam o mesmo efeito através da teoria de que o pecado é causa. Aliás, diga-se de passagem, tem-se constituído no meio das igrejas um fenômeno que podemos chamar de “carma evangélico”, em que a única diferença deste para aquele dos espíritas, é que não se investiga “outras vidas” para “diagnosticar” as causas dos efeitos indesejados.

Entretanto, em certo aspecto nem sequer essa diferença existe, quando se busca a causa do sofrimento de um cristão regenerado, nos atos que ele realizou antes de ter recebido o conhecimento de Cristo. Afinal, se em Cristo nascemos de novo, somos feitos novas criaturas e todas as coisas se fazem novas conforme as Escrituras. Quando um crente busca a causa de seu sofrimento espiritual no seu passado, esta negando o novo nascimento, ou se crê que nasceu de novo, está buscando a causa em outra vida – aquela vida que foi sepultada em Cristo – e assim renegam o sacrifício de Cristo e já não há mais diferença entre os dois carmas.

De qualquer maneira, o que as pessoas não se dão conta é que elas estão fazendo a mais cruel forma de discriminação. Pois essa discriminação é feita, vergonhosamente, em nome da justiça, em nome de Deus. Afinal, “Fulano sofre para pagar seus erros de vidas passadas”, “Sicrano está doente porque pecou”, “Beltrano nasceu assim porque foi amaldiçoado por seu pai, quando ainda estava no ventre de sua mãe”. Como é fácil julgar os outros e renegá-los ao posto de merecedores de seu sofrimento!

O que mais me espanta nessa teologia doente, é que os que não sofrem – pois supostamente são dignos de não passarem tal tormento – ajudam os sofredores para que esses não sofram tanto, impedindo-os assim de pagarem mais rápido todos os seus pecados. E a razão porque fazem isso é crerem que por suas obras ganharão o céu, ou uma reencarnação melhor, ou passarão menos tempo no purgatório.

Se seguissemos essa linha de pensamento, que exclui a obra expiatória de Cristo, concluiríamos que quanto mais eu ajudasse materialmente o necessitado, mais o atrapalharia espiritualmente, uma vez que seu sofrimento físico teria o poder de redimir sua alma. Todavia, se eu não o ajudasse, eu é que seria prejudicado espiritualmente. Então, ajudaria materialmente o próximo, ainda que isso o prejudicasse espiritualmente, para que meu espírito fosse beneficiado. Ora, ora! Se fosse assim, a quem eu estarei dedicando minha caridade? Ao próximo, ou a mim? Seria isso caridade?

Em contraponto a tudo isso, o verdadeiro cristianismo prega que somos todos iguais. Mesmo que condições culturais, familiares, sociais, raciais e genéticas tornem-nos mais ricos, mais pobres, mais saudáveis, mais doentes, mais claros ou escuros, ainda assim somos todos iguais. Deus não faz acepção de pessoas e todos nós temos um propósito perante o criador.

Leis de causa e efeito podem funcionar muito bem na física, na química, na matemática, mas o soberano Deus é amor e o amor nunca é lógico, e ainda que fosse, não seria a lógica tal como a conceituamos. O amor rompe toda relação de causa e efeito, pois ele é causa e efeito em si mesmo. Assim, a razão do amor de Deus sobre nossas vidas é o próprio amor de Deus, "e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras" (Efésios 2:8).

Somente nossa debilidade de amar é que estabelece causas para o “amor”. Todos nós queremos amar, mas será que sabemos de fato o que é o amor? Ah! Claro que sim! A menina tem toda certeza de que realmente ama o Brad Pitt, o rapaz sabe que poderia dar todo amor do mundo a garota do pôster, todos amam irrestritamente o amigo cheio da grana que sempre quebra o galho na hora do aperto, o empresário ama o artista em quem está investindo e logo lhe dará um retorno milionário. Mas ao que me parece ninguém sabe amar aqueles que não trazem qualquer perspectiva de retorno aos anseios instintivos da ambição humana. Que pena, pois era exatamente estes que precisavam ser amados, são exatamente estes que nós precisávamos amar, pois o verdadeiro amor não espera nada em troca. Maior que a necessidade DELES de serem amados, é a necessidade NOSSA de amá-los.

Amar a quem é perfeito, sadio, lindo, inteligente, simpático, agradável é fácil. Quando o Apóstolo Paulo disse que deveríamos considerar o próximo superior a si próprio, não excluiu destes “próximos” os portadores de deficiência, doentes, nem feios, ou de baixo QI, nem os indesejáveis. É nestes de quem não podemos exigir retorno algum, que podemos exercitar a prática do amor verdadeiro. Sei que estes não são menores que eu, que não pagam por erros cometidos em vidas passadas, mas que, na verdade, são Anjos de Deus, enviados a terra para me ensinar a amar como Cristo me amou.

Aquele que é Deus Santíssimo se fez homem e, como se isso já não fosse suficiente, como homem humilhou a si mesmo fazendo-se maldição, suportando o castigo que somente caberia ao pior dentre os homens. Por mais debilitada que seja a condição de alguém, a diferença entre o tal em relação ao mais privilegiado ser humano não chega a um milésimo da diferença que há entre a mais graduada sabedoria humana em relação ao que pudéssemos qualificar de loucura divina. Ainda assim, Deus nos amou sobremaneira e a despeito de toda nossa debilidade deixou sua glória e deu sua vida em favor de tantos debilitados iguais a mim.

E os “sãos” desta terra, continuarão se achando superiores, mais evoluídos, ou aprenderão que Deus está nos ensinando, através desses anjos, a amar como Ele amou?

Pr. Julio Zamparetti Fernandes

domingo, 9 de setembro de 2007

O Verdadeiro Valor

Quanto vale um velho relógio? Alguns diriam que seu preço está relacionado ao tipo de material usado em sua confecção. Outros afirmam que seu valor depende da marca, fabricante. Outra forma de avaliação se dá pela valorização da beleza artística, nos detalhes do feitio manual. Para os técnicos, a avaliação se dá através do aspecto prático, onde seu valor só se dá nos termos da funcionalidade. Para os românticos, ainda que o mesmo relógio não funcione, seu valor pode ser inestimável, pois tudo depende do aspecto sentimental que o objeto representa para o indivíduo. Para os cultos o valor certamente está também relacionado ao que o objeto representa dentro do contexto histórico. Enquanto isso, há sempre aqueles para quem uma velharia não vale nada.

Se nossa pergunta fosse: Quanto CUSTA esse velho relógio? Neste caso, a resposta seria unânime e bem mais simples, bastaria olhar o preço na etiqueta, caso esse estivesse à venda. Neste sentido, percebe-se que o preço anda no caminho inverso do valor. Enquanto o primeiro está vinculado ao comércio, o segundo está ao apego. No primeiro expressa-se a objetividade, enquanto no segundo a subjetividade. Assim, o que custa uma pechincha pode valer muito, enquanto o caro pode valer nada, ou mesmo o barato pode ser muito caro, ao passo que o gratuito pode ser valioso e o que tem valor não tem preço.

O valor está na importância que damos ao objeto da importância. O valor não está no que o objeto é em si, mas no que representa a outro. Partindo desse pressuposto entendemos que o valor de nossa vida não é vivê-la em si ou para si, mas vivê-la no próximo e para o próximo.

Dizemos que vivemos no próximo, quando o valor do próximo está inserido como valor nosso e assim nos realizamos nas suas realizações, nos felicitamos em sua felicidade, bem como sofremos o seu sofrimento e choramos as suas lágrimas. Vemos então que o valor não está relacionado propriamente ao que uma pessoal faz ao outro, mas sim ao que é e representa ao outro.

Dizemos que vivemos para o próximo, quando o nosso valor está inserido como valor do próximo e assim contribuímos para suas realizações e crescimento pessoais ou coletivos. Dessa forma, compreendemos que o que fazemos, ao contrário do que muitos pensam, tem muito haver com os outros. Nossas atitudes, sejam elas boas ou más, sempre terão repercussão sobre a vida do próximo. A partir disso, surgem entre populares os comentários de que Fulano ou Cicrano é valioso ou vale nada. Para a sociedade esse valor não está representado pelo dinheiro que este possui, mas sim no que ele representa para ela no reflexo de suas atitudes.

Em Jesus Cristo temos o maior exemplo de valor e valorização. Seu exemplo foi o exemplo de quem, em primeiro lugar, viveu no outro de tal forma que disse: “quando a um desses pequeninos o fizerdes, a mim o fizeste”. Também viveu para o próximo de forma que tudo o que fez não fez por si, mas por mim... fez por nós. E não fez por que merecíamos que o fizesse por nós. Fez porque nos amou e porque nos amou valeu tudo o que fez. Logo, se Deus me ama, eu tenho valor. Saiba-se então, que o reflexo de aceitar esse verdadeiro valor é a capacidade de se dispor a amar o próximo como Cristo me amou.

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”
(João 3:16).